Sábado, 05 de setembroEdição para quem toma decisão
Matheus RibeiroPolítica e Sociedade
POLÍTICAApurado

Além do Algoritmo

A Estética do Marketing e a Morte da Estratégia Política

algoritmo
Créditos: Banco de imagens/IA

Qual é a linha que separa o marketing da teoria política em uma eleição? Na era digital, essa fronteira parece ter sido não apenas borrada, mas completamente engolida pela lógica das redes sociais. O que testemunhamos hoje é um fenômeno preocupante: comícios visualmente impecáveis, palanques lotados para as lentes das câmeras, discursos inflados de engajamento e um esvaziamento quase total de propostas e mudanças reais.

Basta uma rápida busca em plataformas como o TikTok por "ideias de vídeos para campanha" para nos depararmos com uma linha de montagem eleitoral. São roteiros pasteurizados, copiados e colados em diferentes estados, ignorando as particularidades de cada eleitorado. Estamos diante de uma encruzilhada: presenciamos a falência do debate público ou a ascensão de uma era onde a política foi reduzida a um mero produto de vitrine?

A democratização da tecnologia trouxe consigo a banalização da consultoria. Com um smartphone de última geração nas mãos, qualquer indivíduo com noções básicas de captação de imagem se autodenomina "marqueteiro político". O resultado é a substituição da política real — aquela feita de diálogo, resolução de conflitos e construção de pontes — por campanhas regadas a dinheiro e esteticamente belas, mas vazias de substância.

A verdadeira prova de fogo, no entanto, não ocorre nos momentos de bonança digital. Quando a crise estoura no meio de uma campanha, esses ditos marqueteiros sabem ler as entrelinhas de uma pesquisa qualitativa? Possuem repertório para ajustar rotas, gerenciar danos ou adaptar a mensagem sem recorrer aos moldes importados de outras regiões? Na maioria das vezes, a resposta é não.

Para entender a primazia da estratégia sobre a estética, é preciso recorrer à história recente e à realpolitik. Voltemos ao tempo: Luiz Inácio Lula da Silva seria o fenômeno eleitoral que se tornou sem a articulação pragmática de figuras como José Dirceu? Após derrotas consecutivas em 1989, 1994 e 1998, o PT operava sob uma lógica estritamente de esquerda. A vitória de 2002 não ocorreu apenas porque o marketing criou o "Lulinha Paz e Amor". Ela ocorreu porque houve uma leitura estratégica da teoria política: era necessário acenar ao mercado, aliar-se ao Partido Liberal (PL), dialogar com o empresariado e abraçar o centro.

A pergunta que fica é: uma agência focada apenas em marketing digital teria a envergadura para arquitetar esse xadrez político? Provavelmente não. É exatamente neste ponto que entra a urgência da teoria, da inteligência de dados e da formulação de um projeto de poder. O marketing é a embalagem fundamental; mas sem um produto politicamente viável e estrategicamente posicionado, a embalagem logo se rasga.

Hoje, o debate político empobreceu a ponto de parlamentares basearem toda a sua comunicação na destinação de emendas. Acredita-se que transferir recursos públicos — uma obrigação inerente ao cargo — seja o equivalente a ter um projeto de Estado. Onde está a visão de futuro? A política reduziu-se a um balcão de negócios transacional divulgado no Instagram.

Já passou da hora de a classe política voltar a valorizar os teóricos, os estrategistas e os articuladores. Confiar a viabilidade de um mandato exclusivamente a agências de publicidade é um risco alto que cobra seu preço nas urnas ou, pior, na governabilidade. A consolidação do capital político exige trabalho de base, estratégia, leitura de cenário e respeito à inteligência do eleitor. Curtidas e vídeos virais afagam o ego, mas é a política de verdade que consolida o poder.