China acelera infraestrutura de IA enquanto disputa tecnológica com os EUA chega às conversas entre Xi e Trump
Pequim amplia data centers, desenvolve chips próprios e pretende levar inteligência artificial a diferentes setores da economia; segurança, semicondutores e riscos militares entram na agenda entre as duas maiores potências mundiais

Nas extensas áreas da Mongólia Interior, no norte da China, uma transformação ajuda a dimensionar as ambições de Pequim na corrida global pela inteligência artificial. Conhecida pela produção agrícola e durante anos apresentada como a “capital da batata” chinesa, a região de Ulanqab está se tornando também um dos novos centros de infraestrutura digital do país.
Ao lado das áreas rurais, grandes complexos de data centers estão sendo construídos para fornecer capacidade computacional às plataformas e empresas chinesas de inteligência artificial.
A movimentação ocorre enquanto a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos ganha espaço também nas relações diplomáticas. A inteligência artificial está entre os temas que cercam as conversas entre os presidentes Xi Jinping e Donald Trump, em um cenário marcado pela competição por chips avançados, capacidade computacional, modelos de IA e liderança tecnológica.
Para os dois países, a questão ultrapassa o mercado de tecnologia. Inteligência artificial passou a ser tratada como elemento estratégico para crescimento econômico, indústria, segurança nacional e capacidade militar.
Da “capital da batata” a polo de processamento de dados
Ulanqab oferece algumas das condições necessárias para a expansão dessa infraestrutura: disponibilidade de terrenos, clima relativamente frio — que pode reduzir os custos de refrigeração dos equipamentos — e acesso a fontes de energia.
A região já atrai empresas importantes do setor tecnológico chinês.
A ByteDance, controladora do TikTok, negocia uma forte expansão de sua capacidade computacional em Ulanqab nos próximos dois anos. Segundo informações divulgadas neste mês, o projeto em estudo acrescentaria entre 5 e 6 gigawatts de capacidade à infraestrutura da empresa.
Outras gigantes chinesas, entre elas Huawei, Alibaba e Kuaishou, também possuem investimentos ou estruturas de processamento de dados na região.
A plataforma Xiaohongshu, conhecida internacionalmente como RedNote, também avalia construir um data center de aproximadamente 600 megawatts, com investimento estimado em 15 bilhões de yuans, sem considerar os semicondutores.
A concentração desses projetos mostra como a infraestrutura física se tornou uma das peças centrais da corrida pela inteligência artificial. Modelos cada vez maiores exigem enormes quantidades de chips, eletricidade e capacidade de processamento.
Meta chinesa para 2030
A expansão faz parte de uma estratégia nacional mais ampla.
Em 2025, o governo chinês lançou o plano “AI Plus”, destinado a aprofundar a integração da inteligência artificial à economia e à sociedade.
O documento estabelece que, até 2027, a adoção de dispositivos inteligentes de nova geração e agentes de IA deverá ultrapassar 70%. Para 2030, a meta supera 90%.
Pequim pretende aplicar a tecnologia em áreas como indústria, ciência, consumo, serviços públicos e governança. A expectativa oficial é transformar a chamada economia inteligente em um dos motores do crescimento do país.
O planejamento vai além da criação de grandes modelos de linguagem. A estratégia chinesa procura combinar infraestrutura computacional, semicondutores, robótica, indústria avançada e aplicações comerciais da inteligência artificial.
Em setembro, Xi Jinping voltou a defender o fortalecimento da manufatura avançada e maior controle sobre cadeias industriais consideradas estratégicas. A orientação faz parte da busca chinesa por maior autonomia tecnológica.
Chips são o ponto sensível da disputa
Apesar dos investimentos, a China enfrenta um obstáculo importante: o acesso aos semicondutores mais avançados utilizados para treinar grandes sistemas de inteligência artificial.
Desde 2022, Washington adotou sucessivas restrições à exportação de chips e equipamentos de fabricação de semicondutores para empresas chinesas.
O argumento dos Estados Unidos é que componentes de alto desempenho também podem ser empregados em aplicações militares. Pequim critica as medidas e acusa Washington de utilizar controles comerciais para limitar o desenvolvimento tecnológico chinês.
As restrições estimularam empresas chinesas a acelerar a produção doméstica de componentes.
A Alibaba, por exemplo, apresentou neste mês o Zhenwu V900, novo chip desenvolvido por sua divisão T-Head. Segundo a empresa, o componente oferece desempenho três vezes superior ao de seu antecessor e foi projetado para operar em grandes conjuntos destinados ao processamento de modelos de inteligência artificial.
A companhia também pretende ampliar significativamente sua infraestrutura. A meta anunciada é superar 20 gigawatts de capacidade de data centers até 2032.
Essa busca por autonomia em semicondutores tornou-se uma das principais frentes da competição tecnológica entre Pequim e Washington.
IA chega à mesa de Xi e Trump
A rivalidade tecnológica deve estar presente nas conversas entre os governos chinês e americano.
Nos últimos dias, representantes dos dois países discutiram a possibilidade de estabelecer um mecanismo bilateral de comunicação sobre segurança em inteligência artificial.
A proposta apresentada pelos Estados Unidos prevê notificações relacionadas a incidentes relevantes envolvendo IA e maior diálogo sobre riscos para a segurança nacional.
O assunto foi discutido pelo secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, e pelo vice-premiê chinês He Lifeng antes do encontro entre Trump e Xi.
Até agora, porém, não existe um fórum permanente entre Washington e Pequim dedicado exclusivamente ao tema.
Riscos militares preocupam especialistas
Um dos pontos mais delicados é o uso da inteligência artificial em sistemas militares.
Especialistas americanos e chineses envolvidos em um diálogo promovido pela Brookings Institution e pela Universidade Tsinghua defenderam recentemente a criação de salvaguardas inspiradas em mecanismos utilizados durante a corrida nuclear.
Entre as propostas estão a manutenção de controle humano sobre decisões militares críticas, limites ao uso de IA em sistemas nucleares e a criação de canais diretos de comunicação para situações de crise.
A preocupação é que sistemas automatizados possam interpretar erroneamente informações ou desencadear respostas militares em velocidade superior à capacidade de intervenção humana.
Nenhum dos dois governos adotou formalmente todas essas propostas, mas o debate revela uma mudança importante: a competição pela inteligência artificial já não envolve apenas quem terá os melhores modelos ou empresas mais valiosas.
Ela passou a envolver também como impedir que a própria corrida tecnológica aumente os riscos de um conflito entre as duas potências.
Duas estratégias para uma mesma corrida
China e Estados Unidos também seguem caminhos diferentes na regulamentação.
O governo Trump tem defendido menor intervenção regulatória para evitar obstáculos ao desenvolvimento das empresas americanas. Nesta semana, o presidente voltou a afirmar que considera a inteligência artificial uma tecnologia potencialmente mais transformadora do que a Revolução Industrial.
A China combina fortes investimentos estatais e privados com mecanismos de controle sobre conteúdos e sistemas de IA. Paralelamente, Pequim tenta assumir protagonismo nas discussões internacionais sobre governança da tecnologia.
Em julho, durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Xangai, o governo chinês apresentou um plano de cooperação internacional envolvendo dados, capacidade computacional, formação profissional, padrões técnicos, ética e segurança.
A China também defende ampliar o acesso internacional à infraestrutura e aos sistemas de código aberto desenvolvidos no país.
Uma corrida que acontece também no concreto
A disputa costuma ser representada pelos modelos de inteligência artificial lançados por empresas americanas e chinesas. Mas o que acontece em lugares como Ulanqab mostra outra dimensão da competição.
Por trás dos algoritmos estão data centers, redes elétricas, semicondutores, sistemas de refrigeração, fábricas e enormes investimentos em infraestrutura.
É justamente essa base que Pequim tenta construir em escala.
Enquanto Xi e Trump discutem segurança, comércio e os limites da inteligência artificial, guindastes e operários continuam erguendo novos centros de processamento nas planícies da Mongólia Interior.
A corrida tecnológica entre as duas maiores economias do mundo também está sendo disputada ali — em concreto, aço, energia e capacidade computacional.





