Blog da KarlaComunicação e AtualidadesCRÔNICA | A assembleia
- Tarde demais. Ninguém mais me quer. Minha vida tornou-se uma grande solidão! Virou uma grande confusão a minha presença – lamentou-se o Acento Agudo, ao que o Trema, sacudindo-se, gritou:

- Tarde demais. Ninguém mais me quer. Minha vida tornou-se uma grande solidão! Virou uma grande confusão a minha presença – lamentou-se o Acento Agudo, ao que o Trema, sacudindo-se, gritou:
- Ah! Pode parar com isso, seu chorão! Você diz uma asneira dessas, mas não sabe o sofrimento que é estar na minha pele. Eu, sim, sei o que é ser rejeitado. E não é de agora, não! As pessoas simplesmente nem se lembram mais de minha existência, a não ser quando aparece um gringo para me salvar. E olhe lá!
Enquanto os dois sinais gráficos competiam para ver quem era o mais oprimido dos dois, a Interrogação questionava-se sobre os acordos ortográficos realizados:
- Podem me chamar de filósofa, mas eu realmente me pergunto: por que inventam tantas alterações na ortografia? Seriam mesmo necessárias tamanhas mexidas no que está escrito?
- Pois me espanta a sua dúvida! – vociferou a Exclamação. – Será que você, a filósofa questionadora do grupo, nunca parou para pensar no óbvio, de que as línguas mudam conforme os indivíduos também mudam o jeito de se expressar?!
- Amigos, caros colegas, quero abrir, pois, uma fala muito importante: nunca podemos nos esquecer de que em algum momento tivemos importância na vida de alguém. É preciso dar voz aos oprimidos! – bradou o Travessão.
- E eu aproveito a fala do nosso amigo Travessão para dar meu total apoio a todos que aqui estão, cada qual com suas dúvidas, suas incertezas, é preciso união, é preciso formarmos uma composição homogênea a partir de nossas diferenças – complementou o Hífen.
- Ô Agudo, escuta aqui, cara, eu também sou sempre deixado de lado, muita gente nem sabe que eu existo, nem sabe para que sirvo, mas eu estou aqui, firme e forte dando cobertura para toda e qualquer situação. “Tamo juntôô”! – soltou seu grave o Circunflexo.
Aquela reunião extraordinária da Assembleia dos Sinais Gráficos mais parecia um consultório de psicoterapia: era um para um lado choramingando; outro para o outro lado esbravejando, era uma lamúria completa, tudo em virtude da falta de entendimento pela qual os usuários de tais sinais passavam.
O Apóstrofo, isolado; a Cedilha, deslocada, criticada nas redes sociais pelo simples fato de existir (e ela mesma já se questionava sobre sua importância no mundo!); o Til, quietinho, sempre preferiu ficar na sua e entrar em cena quando fosse chamado, ele sabia e sabe se colocar, mas estava lá para dar apoio aos companheiros. Até que uma voz em meio ao caos elevou-se:
- Escutem aqui, meus caros colegas de profissão: todos vocês estão se queixando disso e daquilo que não sei-o-que-lá, mas difícil mesmo é a minha vida. Já tentaram se colocar no meu lugar? Até os mais entendidos, muitos meus defensores, compreendem minha real função. Porém, cá estou eu, firme, forte e pronto para gerar o caos onde for preciso. Minha luta é também por vocês! – gritou a Crase.
Até que um baixinho, miudinho, que estava lá canto resolveu dar um suspiro e, automaticamente, a real para todos os presentes:
- Amiguinhos, vamos parar com esse choro? Aqui ninguém está para brincadeira, não. É trabalho, é nossa função. Então, larguem de ser os coitados e arregacem as mangas. Porque quando eu falo é porque realmente está decidido. Mãos à obra, que comece a reunião e chega de conversa. – disse o Ponto Final.





