Quinta-feira, 15 de outubroEdição para quem toma decisão
Blog da KarlaComunicação e Atualidades
CRÔNICASApurado

CRÔNICA | Eu queria

Eu queria, na verdade, quero. Vou recomeçar. Eu gostaria. Gostaria mesmo de poder tecer linhas e linhas de elogios a esta profissão que tanto inspirou e trouxe luz à humanidade. No entanto, eu não consigo.

cronicas
Imagem gerada por IA

Eu queria, na verdade, quero. Vou recomeçar.

Eu gostaria. Gostaria mesmo de poder tecer linhas e linhas de elogios a esta profissão que tanto inspirou e trouxe luz à humanidade. No entanto, eu não consigo.

Simplesmente não consigo defender a ideia de professor herói, de professor meu exemplo, de que professor é a mais importante das profissões, sendo que a realidade vivida nas salas de aula é um mar de problemas. E a cada dia que passa ouvimos falar que a Educação é precária, os alunos viraram números, o que importa são os índices e, no fundo, o que era para ser Educação virou indicador.

Apenas me recuso a afirmar que os indicadores INDICAM o que de fato acontece dentro das paredes de uma sala de aula. Uma mente de indicadores certamente enxerga o professor como herói, sendo que, na maioria dos casos, foi uma profissão escolhida quer fosse por gosto a uma determinada disciplina, quer fosse por uma admiração pela função de ensinar ou, simplesmente, como uma oportunidade de ascensão profissional.

Eu queria falar dos professores que marcaram vidas, dos que ensinaram as primeiras letras, dos que despertaram vocações, dos que abriram caminhos. E poderia fazê-lo. Histórias não faltariam.

Mas também gostaria de falar daqueles que entram em sala de aula e precisam, antes de ensinar, conseguir ser ouvidos. Daqueles que preparam aulas para estudantes que já não veem sentido em estar ali. Dos que enfrentam a indiferença, a burocracia, a cobrança por resultados e a expectativa de resolver problemas que ultrapassam, e muito, os limites da escola.

Eu queria falar da admiração pelo professor. Mas como falar de admiração quando tantas vezes se confunde respeito com uma homenagem publicada nas redes sociais?

Há flores, mensagens, discursos e frases bonitas. Há o professor que transforma vidas, o professor que inspira, o professor que salva o futuro. E, no dia seguinte, há a sala de aula. A mesma sala. Os mesmos problemas. As mesmas cobranças.

Talvez tenhamos criado a figura do professor herói porque seja mais fácil esperar que alguém faça milagres do que reconhecer que a educação exige responsabilidades compartilhadas.

Afinal, heróis não reclamam. Heróis superam. Heróis encontram soluções mesmo quando lhes faltam condições. E, quando não conseguem, talvez alguém diga que lhes faltou vocação.

Que palavra conveniente, essa tal vocação.

Professor não é herói. Professor é professor. E enquanto a sociedade continuar vendo em quem vai, todos os dias, com seu material e encara centenas de alunos toda semana como um salvador da pátria, não haverá indicador o suficiente para apontar o caminho da solução.

Eu queria escrever uma homenagem. Queria mesmo. Mas, neste Dia do Professor, preferia que não fosse preciso chamar ninguém de herói para reconhecer o valor de seu trabalho.