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CRÔNICA | O caso da boneca

Ana sempre foi muito caprichosa e cuidadosa com seus pertences. Desde criança, o zelo com os brinquedos era uma marca registrada.

boneca
Imagem gerada por IA

Ana sempre foi muito caprichosa e cuidadosa com seus pertences. Desde criança, o zelo com os brinquedos era uma marca registrada. Ah! Como dava gosto vê-la limpando e guardando sempre com muita atenção os objetos que lhe pertenciam. Era uma característica muito forte que possuía.

Cuidava tanto do que tinha que nem deixava os demais se aproximarem. Preferia guardar para si, brincar sozinha em vez de compartilhar. Preferia os olhos inteiros da boneca a vê-los esbugalhados nas mãos de outra criança. Ana era assim: conservadora em excesso, tão conservadora que guardava, além de memórias, os próprios brinquedos, objetos que marcaram sua infância e que com ela permaneceram por anos e anos.

Ana era assim. E gostava de ser assim.

Passaram-se os anos e uma boneca em especial, seu xodó, era um daqueles objetos cultuados pelos anos pueris: uma boneca. Não era a mais linda de todas, nem a maior, nem a menor, mas era a SUA boneca, a boneca com a qual brincara desde tenra idade e levou consigo até os anos de vida adulta. Era sua, era uma memória (não viva, mas presente) de sua infância.

Ana era assim. E gostava de ser assim.

Aquele símbolo dos tenros anos era a prova de seu zelo, marca registrada de nossa menina de outrora, e tinha um valor que talvez só Ana pudesse compreender.

O tempo correu. Havia dias em que Ana nem olhava para a boneca. Muitas vezes, nem se lembrava de sua existência. Mas era porque sabia que estava guardada praticamente a sete chaves, ainda que repousasse sobre um frágil armário num cômodo de sua casa.

Mas Ana era assim. E gostava de ser assim. Ao menos aquilo estava em sua posse e ela sabia que podia confiar em si mesma para guardar com carinho (e algum esquecimento) aquele objeto, que também via os anos passarem.

Poeira, cabelo desgrenhado, olhos amarelados, o tempo também passava para a boneca. Mas Ana nem percebia: para ela, a boneca era a mesma de sempre.

Era terça-feira, dia de semana útil, normal, mais um dia de trabalho. A rotina começara normalmente e Ana seguiu o dia como costumava fazer, todas as manhãs. Contudo, teve de voltar para buscar um lenço que queria usar naquele dia. Voltou, abriu a porta do armário, pegou o tal lenço e, apressadamente, bateu a porta com um pouco mais de força do que esperava.

Aquela batida foi suficiente para a boneca (que ficava intacta como objeto decorativo sobre aquele armário) tremer e, com isso, perder uma de suas pernas.

O barulho foi pequeno. Para Ana, ensurdecedor. Ficou paralisada diante da cena.

A boneca não havia simplesmente quebrado. Não. Sua perna havia se desmanchado, esfacelado sobre o chão, tornando qualquer tentativa de reconstrução impossível.

Ana olhou para aqueles pequenos pedaços espalhados. O plástico, ressecado pelo tempo, havia perdido a resistência sem que ela percebesse. Por fora, sua boneca continuava sendo aquela de sempre. Por dentro, talvez já estivesse se desfazendo havia muito tempo.

E isso Ana não conseguira conservar.

Nem todo o cuidado, nem os anos protegida das mãos alheias, nem o lugar seguro sobre o armário haviam sido suficientes. A menina que temia ver os olhos da boneca esbugalhados pelas mãos de outra criança agora, adulta, contemplava uma perna reduzida a pequenos fragmentos sem que ninguém sequer tivesse tocado nela. Com exceção do tempo.

Isso talvez tenha sido o que mais a incomodou.

Suspirando, Ana recolheu os pedaços do chão, olhou pela última vez a boneca e viu que lhe faltava uma perna, mas sobravam-lhe décadas.

E então fez algo que, para quem conhecia Ana, seria difícil imaginar: pegou a boneca, caminhou até a lixeira e jogou-a fora. Ana fez assim, sem caixa, sem despedida, sem uma última tentativa de guardá-la em algum canto.

Foi-se a boneca. O zelo, talvez. A memória, não sei.