Blog da KarlaComunicação e AtualidadesCRÔNICA | O homem sem lado
Antônio tinha um problema. Não era de direita. Também não era de esquerda. Ou, pelo menos, era isso que respondia quando lhe faziam a pergunta - o que, ultimamente, acontecia com uma frequência maior do que gostaria.

Antônio tinha um problema.
Não era de direita. Também não era de esquerda. Ou, pelo menos, era isso que respondia quando lhe faziam a pergunta - o que, ultimamente, acontecia com uma frequência maior do que gostaria.
- Mas você é de que lado?
Antônio pensava. E esse talvez fosse seu segundo problema: ele pensava antes de responder.
- Não sei.
O “não sei” causava mais indignação do que qualquer resposta que pudesse dar.
- Como assim não sabe?
Antônio não sabia explicar. Havia coisas de que gostava de um lado, coisas de que não gostava do outro, coisas de que não gostava em lado algum e algumas sobre as quais, vejam só, ainda não tinha opinião formada.
Aos olhos da sociedade, isso parecia imperdoável.
- Mas como? Em pleno século XXI e ficar em cima do muro? – diziam os indivíduos.
Se concordava com uma frase, era imediatamente colocado à direita. Se discordava da seguinte, mudava-se para a esquerda. Bastavam cinco minutos de conversa para Antônio atravessar o espectro político inteiro sem sair da cadeira.
Ele até tentava explicar, mas...
- Mas eu só disse que...
- Eu sabia!
Antônio ainda não tinha descoberto exatamente o que a pessoa sabia, mas eles sabiam o que ele sabia antes mesmo de ele saber.
Em ano de eleição mesmo Antônio só via o seu problema ganhar amplitude: ele acordava com opiniões, tomava café com opiniões, trabalhava ouvindo opiniões, almoçava entre opiniões e, quando finalmente se sentava no sofá para descansar, descobria outras dezenas delas esperando pacientemente no celular.
Era o amigo que mandava vídeos, o grupo da família que mandava áudios, o colega que tinha uma pesquisa “que ninguém estava mostrando”, o vizinho que conhecia alguém que conhecia alguém que trabalhava “lá dentro” e, por isso, sabia de tudo.
Todos sabiam. Menos Antônio.
Um sabia quem venceria; outro sabia quem perderia; um terceiro sabia por que o primeiro estava errado e havia ainda quem soubesse o que Antônio deveria pensar.
Ah! Esse último grupo era especialmente numeroso.
Antônio começou a desconfiar de que, num mundo em que todos tinham alguma coisa a dizer, ficar em silêncio havia se tornado quase uma provocação. Até que ele se lembrou de um velho amigo seu: um sábio urso amarelo que, certa vez, descobrira com Christopher Robin que, às vezes, não fazer nada poderia ser a melhor coisa a fazer. Aquilo lhe pareceu adequado para aqueles tempos.
Talvez Antônio não precisasse responder a cada mensagem. Talvez não precisasse rebater cada opinião, defender-se de cada rótulo ou explicar por que concordava com uma coisa e discordava de outra. Talvez pudesse simplesmente ouvir, pensar, duvidar, mudar de ideia.... ou não fazer nada.
Estavam no almoço de sábado.
- E então, Antônio? Afinal, de que lado você está?
Antônio respirou fundo. Por alguns segundos, pensou em explicar. Poderia falar sobre suas concordâncias, suas discordâncias, suas dúvidas. Mas lembrou-se do velho urso amarelo.
- Hoje eu não vou fazer nada.
- Nada?
- Nada.
E continuou almoçando. Alguém certamente interpretaria o silêncio como apoio. Outro, como oposição. Haveria quem dissesse que estava em cima do muro e até quem descobrisse, naquela colherada, alguma preferência política escondida.
Antônio deixou. E, pela primeira vez, percebeu que não precisava escolher um lado para cada conversa, uma resposta para cada provocação ou uma certeza para cada dúvida.
No dia da eleição, faria sua escolha, porém, naquele almoço, escolheu apenas a sobremesa.





