Hânia GodoyImagem PolíticaDe 2022 a 2026: novas pautas, mais polarização e um centro cada vez menor
As eleições de 2026 deixaram uma mensagem que vai muito além dos nomes escolhidos nas urnas: o eleitor mudou algumas de suas prioridades, mas não abandonou a polarização. Ao contrário, ela parece ter se aprofundado.

As eleições de 2026 deixaram uma mensagem que vai muito além dos nomes escolhidos nas urnas: o eleitor mudou algumas de suas prioridades, mas não abandonou a polarização. Ao contrário, ela parece ter se aprofundado.
Em 2022, a campanha foi fortemente marcada pela economia, inflação, desemprego, programas sociais e pelo confronto entre dois projetos políticos antagônicos. Ao mesmo tempo, pautas como corrupção, religião, meio ambiente e defesa dos valores da família tradicional ajudavam a definir identidades e a separar campos políticos.
Quatro anos depois, algumas dessas bandeiras permaneceram, outras ganharam novos significados e novas demandas sociais conquistaram espaço.
Em 2026, segurança pública e combate ao crime assumiram enorme protagonismo. Saúde, custo de vida, corrupção e educação permaneceram no radar do eleitor. Na educação, temas como alfabetização, ensino técnico, qualidade da aprendizagem, valorização e formação dos professores e diferentes modelos de escola voltaram a disputar espaço no debate público.
O meio ambiente também esteve presente, mas atravessado pela disputa ideológica. De um lado, discursos relacionados à emergência climática, sustentabilidade e preservação; de outro, a defesa do desenvolvimento econômico e críticas ao excesso de restrições ambientais. Mais uma vez, uma pauta essencialmente administrativa tornou-se também marcador de posicionamento político.
As chamadas pautas de costumes continuaram relevantes. Família tradicional, religião, aborto, drogas e valores cristãos permaneceram como importantes elementos de identificação do eleitorado conservador. Na política contemporânea, essas bandeiras não funcionam apenas como propostas: funcionam como símbolos de pertencimento.
Ao mesmo tempo, outras demandas sociais ganharam maior visibilidade. As mães atípicas passaram a ocupar espaço no discurso eleitoral, trazendo questões como inclusão, autismo, deficiência, suporte psicológico, educação inclusiva, redução de jornada e políticas públicas para mulheres que dedicam grande parte de suas vidas ao cuidado.
A proteção e o bem-estar animal também conquistaram espaço. O combate aos maus-tratos, políticas de castração, atendimento veterinário público, controle populacional e responsabilização de agressores deixaram de ser assuntos periféricos para dialogar com uma parcela cada vez mais mobilizada da sociedade. A causa animal possui ainda uma característica eleitoral importante: atravessa divisões partidárias e estabelece forte conexão emocional com o eleitor.
Da mesma maneira, o combate à violência contra a mulher permaneceu como uma demanda incontornável. Feminicídio, violência doméstica, fortalecimento das redes de proteção, acolhimento das vítimas e punição dos agressores passaram a exigir dos candidatos mais do que manifestações protocolares de solidariedade. Em uma sociedade ainda marcada por índices alarmantes de violência, posicionar-se sobre o tema tornou-se também demonstração de compromisso social e capacidade de compreender a realidade vivida por milhões de mulheres.
Essas pautas mostram uma transformação importante da comunicação eleitoral: o eleitor não procura apenas grandes projetos nacionais. Ele também quer reconhecer, no discurso do candidato, problemas que estão dentro de sua casa, de sua família, de sua comunidade e de sua rotina.
Mas talvez uma das imagens mais significativas deixadas pelas urnas de 2026 seja outra: o encolhimento do centro político.
O eleitor parece ter escolhido com maior intensidade os polos. Forças com identidade ideológica mais definida avançaram, enquanto candidaturas e grupos que buscaram ocupar posições intermediárias encontraram maior dificuldade para converter moderação em identificação eleitoral.
É uma contradição interessante: fala-se constantemente em cansaço da polarização, mas, diante da urna, o centro encontrou dificuldades para transformar esse desgaste em voto.
Em uma sociedade polarizada, posicionamento também comunica força. O candidato que tenta falar com todos corre o risco de não estabelecer identificação profunda com ninguém. Já aquele que possui códigos claros — discurso, valores, estética, comportamento e bandeiras reconhecíveis — oferece ao eleitor uma identidade facilmente decodificável.
Existe ainda outra transformação. Em 2022, as redes sociais já eram decisivas. Em 2026, tornaram-se ainda mais determinantes na construção e destruição de reputações. Vídeos curtos, cortes, memes, narrativas emocionais e conteúdos produzidos ou manipulados por inteligência artificial fizeram com que a percepção sobre um candidato pudesse mudar em poucas horas.
Se 2022 foi uma eleição marcada pela pergunta “de que lado você está?”, 2026 acrescentou outra: “quem representa aquilo em que você acredita?”
Segurança, saúde, educação, meio ambiente, família, mães atípicas, proteção animal, combate à violência contra a mulher, economia ou corrupção parecem pautas distintas. Na construção da imagem política, porém, possuem algo em comum: quando um candidato consegue transformá-las em posicionamento coerente, elas deixam de ser apenas promessas e passam a comunicar valores, identidade e pertencimento.
E as urnas de 2026 parecem ter deixado um recado incômodo ao centro: em tempos de hiperpolarização, não basta ocupar o meio. É preciso representar alguma coisa.





