Hânia GodoyImagem PolíticaEntre o terno, o gesto e a ausência
O que o primeiro debate da Band revelou sobre a imagem dos presidenciáveis

O primeiro debate presidencial de 2026, realizado pela Band neste domingo (23), começou antes mesmo das perguntas dos jornalistas. Começou nos púlpitos vazios.
Lula, Flávio Bolsonaro e Romeu Zema decidiram não participar, deixando no palco apenas Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. E, em política, ausência também comunica. Os três espaços vazios se transformaram em uma mensagem visual impossível de ignorar e deram aos presentes uma oportunidade rara: falar diretamente ao eleitorado sem a presença dos dois candidatos que lideram as pesquisas.
Para quem observa a política pela perspectiva da imagem, esse talvez tenha sido o principal acontecimento da noite.
Três candidatos, três imagens
Ronaldo Caiado apostou em uma imagem tradicional de autoridade. O terno azul-marinho e a gravata estampada reforçaram uma aparência institucional e experiente. Sua comunicação corporal foi compatível com esse posicionamento: menos performática, mais apoiada na experiência de quem já exerceu mandato executivo.
Caiado procurou ocupar o espaço deixado pelos ausentes com a imagem de quem está disposto a enfrentar o eleitor e os adversários. Ao classificar os faltosos como “fujões”, transformou a presença física em argumento político.
Renan Santos apresentou uma construção completamente diferente. O terno azul associado à gravata amarela cria uma identidade visual mais jovem e marcante. O amarelo, inclusive, conversa diretamente com a identidade de seu partido e com a estética de sua campanha.
Mas foi o comportamento que realmente definiu sua imagem naquela noite.
Ao chegar à Band carregando fraldas com os nomes de Lula e Flávio Bolsonaro, Renan transformou um objeto em uma peça de comunicação política. Foi provocação, espetáculo e conteúdo para as redes sociais ao mesmo tempo.
A estratégia é eficiente para gerar lembrança. O risco é outro: quando a agressividade ocupa espaço demais, a imagem do candidato pode ficar associada mais à provocação do que à capacidade de governar.
Augusto Cury, por sua vez, apresentou uma imagem mais intelectual e institucional, coerente com sua trajetória como escritor e psiquiatra. Seu discurso buscou explorar educação, comportamento, saúde emocional e desenvolvimento humano. Durante o debate, também procurou se diferenciar do tom mais agressivo de Renan.
Curiosamente, porém, Cury quase não chegou ao palco. Momentos antes do debate, anunciou que não participaria em protesto contra a ausência de Lula e Flávio, mas voltou atrás e decidiu entrar no estúdio.
Para a imagem política, esse episódio merece atenção: a coerência entre discurso e comportamento é fundamental. Um candidato que defende equilíbrio precisa demonstrá-lo também nos momentos de pressão.
Quando a postura fala mais que a proposta
O debate mostrou algo que nós, sabemos há muito tempo: o eleitor não recebe apenas palavras. Ele recebe sinais.
A forma de sentar, olhar, gesticular, interromper, sorrir, elevar a voz ou permanecer em silêncio participa da construção da percepção pública.
Renan foi o mais performático. Caiado buscou a autoridade. Cury tentou ocupar o lugar da moderação e do equilíbrio.
Nenhuma dessas estratégias é necessariamente melhor. A questão é qual delas consegue produzir identificação com o eleitor que cada candidato precisa conquistar.
E esse é o ponto central: debate não serve apenas para apresentar propostas. Serve para responder silenciosamente à pergunta que o eleitor faz diante da televisão:
“Eu consigo imaginar essa pessoa representando o Brasil?”
Quem pode ganhar votos?
O impacto eleitoral imediato ainda não pode ser medido. Pesquisas mostram Lula e Flávio Bolsonaro muito à frente dos demais, enquanto Caiado, Renan e Cury partem de patamares menores. Na pesquisa BTG/Nexus divulgada em 17 de agosto, Lula tinha 41%, Flávio 36%, Caiado 5%, Renan 4% e Cury 1%.
Por isso, o objetivo dos três participantes não era apenas “vencer o debate”. Era ganhar conhecimento, lembrança e consideração.
Para Caiado, a oportunidade é apresentar-se como alternativa à polarização. Para Renan, ampliar seu alcance para além das redes sociais e consolidar-se como uma nova liderança da direita. Para Cury, apresentar-se como uma opção menos confrontacional e mais ligada à educação, à saúde emocional e à conciliação.
Renan, especialmente, conseguiu aquilo que uma candidatura com pouca exposição televisiva precisa: ser lembrado no dia seguinte. Sua estratégia foi visualmente forte e facilmente recortável para as redes.
Mas há uma diferença importante entre viralizar e conquistar voto.
A viralização produz atenção. A eleição exige confiança.
O maior personagem do debate não estava no palco
Ironia política: os candidatos ausentes acabaram sendo protagonistas.
Lula e Flávio foram citados repetidamente, enquanto seus púlpitos vazios permaneceram como elementos cenográficos durante a transmissão.
Isso demonstra uma regra básica da comunicação política: não participar também é uma escolha de posicionamento.
Para seus eleitores mais fiéis, a ausência pode ser interpretada como estratégia. Para eleitores indecisos, porém, pode gerar outra leitura: a de quem evita o confronto.
Ainda é cedo para dizer qual interpretação prevalecerá.
O que já é possível afirmar é que o primeiro debate da Band não definiu a eleição — mas definiu algumas primeiras impressões.
E, em uma campanha cada vez mais visual, digital e emocional, primeiras impressões importam.
No fim, o debate deixou uma lição para todos os candidatos: a imagem política não está apenas no que se veste. Está na maneira como se entra, se posiciona, se responde, se enfrenta, se cala e, principalmente, naquilo que o eleitor sente depois que a câmera é desligada.
Porque voto não nasce apenas da proposta.
Nasce também da percepção de quem parece preparado para ocupar o lugar que está disputando.





