Hânia GodoyImagem PolíticaJanja sequestrou o verde da bandeira?
No 7 de Setembro, a primeira-dama parece ter entendido que, em ano eleitoral, disputar a estética do Brasil também é disputar sua narrativa.

Existe roupa que veste uma pessoa. E existe roupa que veste uma ideia.
O look escolhido por Janja Lula da Silva para o desfile de 7 de Setembro pertence à segunda categoria.
O vestido branco, com bordados verdes, não reproduz a bandeira brasileira — e talvez seja justamente aí que esteja sua força política. Em vez de recorrer ao verde e amarelo de maneira explícita, Janja seleciona um dos códigos mais poderosos da identidade nacional e o incorpora de forma elegante, feminina e institucional.
É uma apropriação simbólica sem parecer uma apropriação simbólica.
O branco comunica paz, equilíbrio e conciliação. O verde introduz a brasilidade. O trabalho artesanal e a origem pernambucana da peça acrescentam outros significados: produção nacional, identidade regional, sustentabilidade, valorização do trabalho feminino e economia criativa.
Nada disso precisa ser dito em um discurso, a roupa já diz.
E é justamente por isso que a escolha merece ser observada politicamente.
Em 2023, Janja apareceu no mesmo feriado vestida de vermelho — uma cor que, inevitavelmente, aproximava sua imagem do campo político de Lula e do PT.
Três anos depois, o código parece ter mudado: Menos partido, mais Brasil. E essa mudança ganha outra dimensão quando lembramos que estamos em 2026, ano eleitoral.
O verde da bandeira não pertence exclusivamente a um grupo político. Durante os últimos anos, tornou-se um dos símbolos mais disputados da política brasileira. Vestir verde, portanto, pode ser apenas uma escolha estética — mas também pode funcionar como uma declaração silenciosa de pertencimento à ideia de nação.
É aí que está a provocação: Janja está apenas usando verde ou ajudando a reconstruir, visualmente, a relação do campo lulista com os símbolos nacionais?
Não é possível afirmar uma intenção subjetiva apenas a partir da roupa. Mas, na comunicação política, intenção não é tudo. Percepção também comunica.
E a percepção produzida pelo conjunto é clara: uma primeira-dama que busca se afastar da imagem exclusivamente partidária e ocupar um espaço mais amplo — o da mulher, da cultura brasileira, da sustentabilidade e da própria identidade nacional.
Até a silhueta participa dessa estratégia. O vestido midi, a gola estruturada e as mangas 3/4 constroem uma imagem de elegância controlada: suficientemente feminina para produzir identificação, suficientemente institucional para não disputar protagonismo com o presidente.
Janja não aparece como uma espectadora do poder, ela aparece como parte da narrativa do poder. Por isso, talvez a pergunta da manchete seja mais interessante do que parece.
Janja sequestrou o verde da bandeira? Talvez não.
Mas, se a política é também uma batalha permanente pelos símbolos, ela certamente entendeu que quem ocupa os símbolos nacionais ocupa uma parte importante do imaginário do eleitor.
E, neste 7 de Setembro, enquanto muitos olhavam para os tanques, para as autoridades e para o desfile, havia uma disputa muito mais silenciosa acontecendo.
A disputa para decidir quem pode vestir o Brasil.





