Blog Arthur RiosPolítica e EleiçõesES | Pazolini entre a direita que precisa herdar e o centro que não pode perder
Após vencer duas vezes em Vitória rejeitando os extremos, Pazolini é candidato a governador aliado ao PL

O prefeito que não era bolsonarista
Em novembro de 2020, às vésperas de vencer sua primeira eleição para a Prefeitura de Vitória, Lorenzo Pazolini (Repulicanos) era categórico: "não sou candidato de Bolsonaro ou Lula em Vitória e rejeito extremos". A frase, dita à Folha de S.Paulo, resumia a estratégia que o elegeria duas vezes na capital.
Menos de seis anos depois, agora candidato ao governo do Espírito Santo, Pazolini ora publicamente pela saúde de Jair Bolsonaro, a quem chama de "nosso presidente", declara apoio a Flávio Bolsonaro para a Presidência e divide a mesa com lideranças do PL.
A guinada, nesse caso, é pura matemática. O que funcionou na capital não iria funcionar na corrida ao governo do estado, e Pazolini está fazendo a conta que a nova escala exige. O problema é que essa conta tem um termo difícil de equilibrar.
A neutralidade que funcionava
Nas duas eleições que venceu em Vitória, em 2020 e 2024, Pazolini construiu sua força justamente sobre a recusa a se rotular. E havia método nisso.
Embora Bolsonaro tivesse vencido o segundo turno presidencial de 2018 na cidade com folga (63,19% dos votos válidos), o cenário local mudou rápido. Segundo o Ibope, em setembro de 2020, 44% avaliava o governo Bolsonaro como ruim ou péssimo em Vitória; em novembro, esse índice já chegava a 51%. Ou seja: a eleição municipal de 2020 se dava num ambiente de rejeição crescente ao presidente, num território que dois anos antes lhe fora generoso.
Nesse quadro, não se colar a Bolsonaro era perspicácia, não omissão. Pazolini, que ainda usava o nome de urna com que se elegera deputado - Delegado Lorenzo Pazolini -, venceu no segundo turno de 2020 com 58,50% dos votos válidos, contra 41,50% de João Coser (PT).
Ao longo do primeiro mandato, manteve a aparente neutralidade na disputa nacional, deixando o enfrentamento ideológico a cargo de seus vereadores mais à direita na Câmara. Ele, porém, pairava acima.
Bem avaliado, repetiu a fórmula em 2024 e venceu em primeiro turno.
Na capital, a neutralidade era um ativo, rendia votos sem cobrar o preço de tomar um lado na disputa ideológica.
Por que no estado a conta muda
Candidato ao governo, Pazolini enfrenta outra matemática.
Para ser competitivo em escala estadual, precisa do espólio eleitoral da direita. No Espírito Santo, Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2018 e 2022, nos dois turnos. Ignorar essa base seria abrir mão de um contingente decisivo de votos.
Foi o que moveu a guinada de 2026, que aconteceu em etapas nítidas. Em março, o culto e a solidariedade ao estado de saúde de Jair Bolsonaro, chamado por Pazolini de "nosso presidente". Em 13 de julho, pela primeira vez na carreira política, Pazolini declarou apoio a um presidenciável (Flávio Bolsonaro, do PL), numa rádio do interior paulista que se apresenta como "a voz da direita". Cinco dias depois, num encontro estadual do PL, o gesto virou aliança de mão dupla: Flávio declarou apoio à pré-candidatura de Pazolini ao governo e ele retribuiu, endossando o senador para o Planalto e Maguinha Malta para o Senado. No começo de agosto, sentou-se à mesa da convenção do PL enquanto Magno Malta, presidente estadual do partido, discursava contra as vacinas da Covid-19 e defendia a indistinção entre religião e política.
Cada passo aproximou Pazolini do eleitorado que lhe faltava e o olhava com desconfiança. E cada passo o afastou da posição confortável de quem não era de lado nenhum.
A equação difícil de equilibrar
Aqui está o termo mais difícil de equilibrar na conta. Pazolini precisa ser bolsonarista o bastante para herdar o espólio do PL e moderado o bastante para não perder o centro. E, no Espírito Santo, é o centro que decide.
É um desafio semelhante ao que Tarcísio de Freitas (Republicanos) teria de enfrentar caso fosse o candidato da direita à Presidência.
A evidência é recente e eloquente. Em 2018 e 2022, o estado deu maioria a Bolsonaro nas presidenciais, mas elegeu e reelegeu para o governo Renato Casagrande (PSB), que derrotou nas duas vezes o candidato da direita bolsonarista, Carlos Manato (PSL e PL, naquelas ocasiões, respectivamente).
Em 2022, Manato cresceu, mas esbarrou exatamente no limite que agora ameaça Pazolini: faltou-lhe capacidade de atrair o eleitor de centro, num estado que vota em Bolsonaro para presidente mas escolhe moderados para governador. Cabe lembrar que durante 23 anos o Espírito Santo teve apenas dois governadores eleitos, Paulo Hartung e Renato Casagrande, que possuem algumas diferenças de perfil mas são igualmente moderados.
É esse o risco que a guinada traz: quanto mais Pazolini se aproxima do PL para garantir a base, mais se expõe à acusação de radicalização que afugenta o centro - o mesmo centro que o elegeu duas vezes em Vitória.
O contraste com seu novo aliado ilumina a dificuldade. Flávio Bolsonaro pode se dar ao luxo de ser radicalmente moderado, sem que ninguém duvide do seu pertencimento à direita: o sobrenome é a garantia. Com absoluta tranquilidade, ele diz que se vacinou contra a Covid-19 e que tem um trato mais fino do que o pai com a imprensa, dentre outras diferenciações que faz sem questionamentos da base mais fiel.
Pazolini não tem essa rede. Cada aceno seu à direita é uma aposta que precisa ser paga com a moeda da desconfiança do centro. E cada retorno ao centro poderá soar como traição à base de direita que acabou de cortejar e exige adesão completa e posicionamentos firmes a favor de todas as suas pautas. É essa equação que Pazolini terá de equilibrar para vencer.
O vice que falta
Enquanto Ricardo Ferraço escalou um vice que lhe empresta o que falta, Pazolini ainda tem essa carta na mão. E, no caso dele, a escolha do vice não será um detalhe: será a tradução mais clara de para que lado o equilíbrio vai pender.
Um vice de perfil bolsonarista consolidaria a aliança com o PL e sinalizaria compromisso com a base de direita, ao custo de reforçar a imagem que assusta o centro. Um vice moderado, de outro campo, protegeria o centro que sempre o elegeu, ao custo de irritar os aliados que ele passou meses cortejando.
Não há escolha neutra. O nome que Pazolini anunciar dirá, melhor do que qualquer discurso, se ele apostou na direita que precisa herdar ou no centro que não pode perder.
A neutralidade que o elegeu na capital não cabe no tamanho do estado. Resta saber se, ao trocá-la pela adesão da direita, Pazolini não encolherá justamente onde precisava crescer.





