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ES | Ricardo Ferraço anuncia o vice com o pé na areia

Base na capital, apelo popular e juventude: o que Camillo Neves agrega à chapa da continuidade

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Créditos: Reprodução/Instagram

O governador do Espírito Santo, Ricardo Ferraço (MDB), anunciou seu candidato a vice-governador nesta segunda-feira, em um vídeo no formato de selfie, gravado na praia, no tom informal de quem manda um áudio para amigos com o pé na areia. "Bora pro jogo", escreveu na legenda da foto que postou em seguida, ao lado do escolhido, o vereador de Vitória Camillo Neves, do Progressistas (PP).

As chapas de candidatos, os recursos financeiros e o tempo de propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão são obviedades que explicam a escolha por um representante da Federação União Progressista (União Brasil e PP). Mas não explica a escolha por Camillo Neves dentre todos os perfis aventados.

Com base própria em Vitória, Camillo será a presença direta da chapa no território do principal adversário, Lorenzo Pazolini (Republicanos), com a missão de ocupar a lacuna da ausência de um palanque oficial na capital.

Ferraço herdou de Renato Casagrande (PSB) o apoio de prefeitos em seis das sete cidades da Grande Vitória, a região onde se concentra a maioria dos eleitores do estado e onde a chapa precisa abrir vantagem. A exceção é justamente a capital, reduto de Pazolini, que será apoiado pela prefeita, Cris Samorini, ainda que ela seja filiada ao PP.

A escolha por Camillo também visa mitigar fragilidades de imagem e de discurso na campanha do governador.

No campo da imagem, a fragilidade mais evidente é a idade: um veterano ganha um vice prestes a completar 35 anos. O próprio Ferraço nomeou esse cálculo, ao falar em "unir a força e o talento da juventude à nossa experiência".

A legenda da foto na qual posa ao lado do seu candidato a vice, postada no Instagram logo após o vídeo do anúncio, é reveladora: totalmente escrita no vocabulário do esporte ("bora pro jogo", "craque", "fera", "nosso time está crescendo", "vem que vai dar jogo"), essa maneira de comunicar não é mera referência ao perfil de Camillo, mas também busca projetar energia e juventude.

A fragilidade menos evidente (e mais reveladora) é o equilíbrio entre gestão e popularidade.

Com mais de quarenta anos de vida pública e passagens por doze partidos, Ferraço foi vice-governador de Paulo Hartung e de Renato Casagrande, secretário de estado, senador, deputado federal, deputado estadual e vereador, além de governador desde abril deste ano.

Esse histórico faz com que chegue à disputa com um patrimônio raro, a experiência, mas com um problema claro: a imagem de gestor competente e experiente não emociona.

Anunciar o companheiro de chapa na areia da praia, pelo Instagram, comunica algo antes mesmo de dizer qualquer nome: leveza, juventude e proximidade.

Com histórico de atleta profissional de futebol de areia, convocado para as seleções brasileira e italiana, e fundador de um instituto social que atende gratuitamente 600 pessoas na capital, Camillo Neves agrega afeto à imagem de gestor competente oferecida por Ferraço ao eleitor.

Já no campo do discurso, Camillo suaviza o contraste evidente entre Ricardo Ferraço, representante da continuidade, e Lorenzo Pazolini, que se apresentará como rosto de uma nova geração de lideranças políticas.

A tônica do anúncio também traduz uma leitura precisa sobre onde a eleição capixaba se decide. Não há menções ideológicas, mas um time montando escalação para a temporada. Quem disputa o eleitor moderado não fala a língua dos extremos; fala a língua do cotidiano, do esporte, da família, da comunidade. Ferraço se apresenta como continuidade da estabilidade, o que não combina com discurso de radicalização, mas com serenidade e proximidade.

Essa aposta de tom tem lastro histórico recente. Em 2018 e 2022, Jair Bolsonaro venceu no estado nos dois turnos das eleições presidenciais, mas foi Renato Casagrande, candidato do PSB, quem se elegeu governador, batendo Carlos Manato, candidato da direita bolsonarista, em ambas as vezes.

Em 2022, Manato cresceu, tanto em comparação a 2018 (quando perdeu no 1º turno) quanto entre os dois turnos, mas faltou-lhe justamente a potencialidade de captar o eleitor de centro.

A lição é que o Espírito Santo que vota em Bolsonaro para presidente parece preferir um moderado para governador; ou seja, quem conquista o centro se dá melhor.

Camillo é um nome de centro, com perfil pessoal conhecidamente agregador e moderado. Mas essa característica sobra a Ricardo Ferraço e não justificaria, por si só, um espaço de vice. Nesse aspecto, a escolha cumpre mais o papel de não atrapalhar.

O que Camillo agrega mesmo à chapa de Ferraço são raízes fincadas em Vitória, afeto e um sopro de renovação política.