Blog Arthur RiosPolítica e EleiçõesO espetáculo que premia quem esconde
Ao noticiar o patrimônio declarado pelo valor cru ou pela variação, a imprensa inverte a lógica da transparência
Nos primeiros dias das campanhas eleitorais, uma cena se repete. Divulgadas as candidaturas, vem a enxurrada de manchetes sobre o patrimônio e a evolução patrimonial dos candidatos.
O leitor passa os olhos e sente que foi informado sobre algo que importa. A notícia o leva a crer que está descobrindo quanto o candidato tem ou o quanto ele enriqueceu com a política.
Esse tipo de notícia se baseia em autodeclarações dos candidatos sobre seus bens, nas quais não é incomum, por exemplo, que imóveis sejam subavaliados pelo preço de aquisição (não pelo de mercado) e que bens financiados apareçam sem o desconto da dívida ou nem apareçam.
A imprensa peca, por preguiça ou conscientemente, ao tratar esses números como retratos fiéis da riqueza de um candidato, levando o público a confundir o que é documentado com a realidade.
Parte da cobertura trata de outro número que chama atenção, mas também não diz tudo: a variação percentual. "Patrimônio do candidato cresceu 4.000%" é o tipo de manchete que parece mais sofisticado, porque sugere movimento, evolução, algo a esconder. Mas é o mesmo espetáculo vestido de rigor.
Um percentual monstruoso quase sempre nasce de uma base pequena. Alguém que declarava R$ 10 mil numa eleição anterior e passou a declarar R$ 400 mil apresenta um crescimento de 4.000% no patrimônio e isso é noticiado ignorando-se, por exemplo, que o candidato pode ter comprado o primeiro imóvel financiado da vida. No sentido inverso, o candidato já muito rico cujo patrimônio sobe 5% entre uma eleição e outra tem, nesse percentual modesto, um incremento em valor maior do que o exemplo anterior.
Inclusive, existem causas inteiramente lícitas que os números isolados não distinguem: herança, valorização de mercado, venda de um bem que vira saldo em conta, casamento. Tudo isso aparece como "crescimento patrimonial" na imprensa.
E disso tudo decorre uma distorção perversa: a cobertura midiática pune quem declara a realidade patrimonial e premia quem a esconde.
O candidato que lança tudo sem manobras é o que aparece nas primeiras colocações dos rankings, vira manchete entre "os mais ricos da disputa" ou “os que mais enriqueceram” e colhe a suspeita difusa que os números grandes despertam.
Já quem subdeclara, distribui bens em nomes de terceiros e estrutura o patrimônio para encolher no papel escapa da chamada, não entra na comparação, não vira notícia.
O espetáculo dos números, vendendo-se como fiscalização, acaba por premiar a ocultação e penalizar a franqueza. É o oposto do que a transparência deveria produzir.
E um enquadramento tão falho só persiste porque o número declarado é a pauta mais barata que existe. Está pronto, dispensa investigação e rende engajamento imediato. Jornalismo de custo mínimo e clique máximo.
Do outro lado da tela, o eleitor completa o circuito. Ele consome o número, sente a emoção que ele provoca, reage ao post e segue em frente com a sensação de ter fiscalizado alguém, sem ter recebido nenhuma informação que o ajude a votar melhor.
Nada disso significa que a declaração de bens seja inútil. Ela é um importante instrumento de fiscalização, mas por um dado que não vira chamada: não o quanto o candidato tem, nem o quanto seu patrimônio subiu, e sim se essa evolução é compatível com a renda e tem origem explicável.
O patrimônio e sua variação, isolados, não trazem respostas: inspiram perguntas. O problema nunca foi falar de patrimônio, mas tratar do assunto sem produzir informação.
A transparência que cabe numa manchete raramente é a que revela alguma coisa.





