Rússia inclui fundador do Telegram em lista de terroristas e amplia pressão sobre aplicativo
Plataforma se tornou uma das principais ferramentas de comunicação, inteligência e disputa de narrativas na guerra entre Rússia e Ucrânia.

A Rússia incluiu o fundador e CEO do Telegram, Pavel Durov, em sua lista de terroristas e extremistas, segundo informações divulgadas pela agência estatal Ria Novosti. A decisão foi oficializada pela Rosfinmonitoring, órgão responsável pelo monitoramento financeiro do país, e representa mais um capítulo da disputa entre o governo russo e a plataforma de mensagens.
Nos últimos meses, Moscou intensificou as críticas ao Telegram, alegando que o aplicativo não remove conteúdos considerados ilegais pelas autoridades russas, incluindo materiais relacionados à guerra na Ucrânia. De acordo com a legislação do país, pessoas e organizações incluídas nessa lista ficam impedidas de utilizar serviços financeiros, organizar eventos públicos, participar de eleições, publicar conteúdos na internet e conceder entrevistas à imprensa russa.
A medida foi anunciada um dia após autoridades russas acusarem formalmente Durov de "facilitar atividades terroristas ucranianas" e emitirem um mandado internacional de prisão contra o empresário. Segundo o Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), o Telegram teria deixado de remover conteúdos utilizados por serviços de inteligência ucranianos e por organizações classificadas pelo governo russo como terroristas para coordenar atos de sabotagem, ataques e fraudes cibernéticas.
Durov rejeita as acusações. Em uma publicação feita em seu canal no Telegram, afirmou que foi classificado como "terrorista" por se recusar a atender exigências de vigilância em massa e censura feitas pelo governo russo.
O papel do Telegram na guerra
Desde o início da guerra entre Rússia e Ucrânia, o Telegram deixou de ser apenas um aplicativo de mensagens para se tornar uma das principais ferramentas digitais utilizadas no conflito.
A plataforma reúne canais e grupos administrados por militares, autoridades, jornalistas, voluntários e civis dos dois lados da guerra. Nesses espaços são publicados comunicados oficiais, imagens de ataques, alertas de bombardeios, registros feitos no campo de batalha e informações sobre movimentações militares.
Esse grande volume de conteúdo também transformou o aplicativo em uma importante fonte de inteligência de código aberto (OSINT). Analistas independentes, jornalistas e equipes ligadas aos dois países utilizam fotos, vídeos, geolocalização e outras informações públicas compartilhadas no Telegram para identificar posições militares, equipamentos, rotas de deslocamento e possíveis alvos estratégicos.
Ao mesmo tempo, governos da Rússia e da Ucrânia já alertaram, em diferentes momentos do conflito, que publicações feitas por civis podem revelar involuntariamente informações sensíveis, como a localização de sistemas de defesa aérea, bases militares ou o resultado de ataques recentes.
Além do aspecto operacional, o Telegram também se tornou um espaço central para a disputa de narrativas. Canais pró-Rússia e pró-Ucrânia divulgam versões diferentes dos acontecimentos, comunicados militares, vídeos e conteúdos destinados a influenciar a opinião pública. Em meio ao grande fluxo de informações, também circulam conteúdos falsos ou descontextualizados, que frequentemente precisam ser verificados por organizações especializadas.
Com mais de 1 bilhão de usuários em todo o mundo, o Telegram tornou-se uma das plataformas mais relevantes para acompanhar o conflito em tempo real, sendo utilizado por autoridades, veículos de imprensa, pesquisadores e pela população civil.
Quem é Pavel Durov
Pavel Durov, de 41 anos, nasceu na Rússia, mas atualmente possui cidadania dos Emirados Árabes Unidos e da França. Antes de fundar o Telegram, em 2013, criou a VKontakte (VK), considerada a maior rede social da Rússia, da qual deixou o controle em 2014 após conflitos com autoridades russas.
Além da investigação conduzida pela Rússia, Durov também responde a um processo na França. As autoridades francesas investigam se o Telegram adotou medidas suficientes para combater atividades criminosas na plataforma e colaborar com solicitações das forças de segurança. O empresário nega irregularidades.
Apesar das tentativas do governo russo de restringir o uso do Telegram e incentivar a adoção do aplicativo estatal Max, diversos órgãos oficiais do país, incluindo o Kremlin e o Ministério da Defesa, continuam utilizando a plataforma para divulgar informações e comunicados diariamente.





