Blog Arthur RiosPolítica e EleiçõesUm Silva emerge do mar de mesmice
Na era dos jingles uniformizados por IA, a campanha de Lula vai na contramão com um clássico do funk e versos repletos de acenos

No último fim de semana, a campanha do presidente Lula à reeleição divulgou um jingle baseado na música “Rap do Silva”, escrita e interpretada por MC Bob Rum, lançada em 1995. A peça de propaganda gerou bastante engajamento nas redes sociais e foi mencionada até por perfis que se posicionam como adversários de Lula, que, pesarosos, viram nela um indicativo de uma suposta vitória inevitável.
A música original retrata a vida simples e as dificuldades de um trabalhador comum de periferia, “mais um Silva”, que gostava de funk, sofria preconceito e foi assassinado em uma esquina, a caminho de um baile. Trata-se de um clássico do funk carioca, que ajudou o gênero a romper barreiras e ganhar expressão nacional nos anos 1990. Um clássico vivo há três décadas, que saiu das fitas cassete e dos CDs e chegou às playlists; que, de fenômeno comercial, passou a compor a memória afetiva de muitos brasileiros.
A escolha da música de base explica o alcance que o jingle atingiu: é ela quem abre as portas atuando diretamente no sentimento de nostalgia de quem era criança, adolescente ou jovem em 1995 e, hoje, compõe um grupo de 45.712.773 eleitores - 28,80% do eleitorado brasileiro.
E a construção de diálogo que a campanha pretende fazer está apresentada quase didaticamente na letra do jingle, que funciona como ato de abertura de uma campanha na qual se tentará estabelecer conversas não só com a bolha que tem certeza do voto em Lula, mas também com quem ele precisa conquistar.
Assim como na canção original, permanece na letra da peça de propaganda a trajetória de “só mais um Silva” - nesse caso, a do presidente que carrega o sobrenome mais popular do país. Porém, o jingle não repete a história triste.
Ele busca dialogar com os sentimentos de eleitores que associam o sucesso aos méritos pessoais e/ou que creem que a prosperidade nesse mundo é dada por Deus como retribuição pela fé.
No campo dos afetos desse numeroso público, que é atraído pelos discursos de meritocracia, de prosperidade e antissistema, mais presente na comunicação da direita, tentar criar uma identificação com o líder pelo aspecto da pobreza seria um erro. E o jingle apresenta o presidente Lula como alguém que, por mais simples que um dia tenha sido, sempre teve “a estrela que brilha”. Alguém que era predestinado a ser um vencedor e, por seu trabalho e mérito, conseguiu; que “enfrentou um sistema que tentou lhe derrubar e calar” e “fez o povo prosperar”.
Na tentativa de dialogar com eleitores que carregam valores conservadores e religiosos, o jingle fala do Lula que é de família e cuida dela, que “leva sua fé no peito”. Cabe lembrar que a música já foi canal de outra tentativa de aproximação de Lula com esse público recentemente, com a publicação de "Tapete Vermelho" nas redes sociais. Composta por Lina Cruz, a canção foi divulgada por ela como uma homenagem ao presidente e, depois, foi compartilhada nos perfis oficiais de Lula e do Partido dos Trabalhadores. Na melodia, uma típica canção gospel; na letra, referências a obstáculos e pessoas que tentaram prejudicá-lo (batalha espiritual), voltas triunfais, prosperidade do próprio Lula e da população, "portas se abrindo do outro lado do mar", céu e Deus.
No jingle, também aparece a soberania do Brasil, pauta que melhorou o desempenho de Lula nas pesquisas eleitorais e que vai ocupar um espaço relevante na disputa pela Presidência da República, com potencialidade de atrair o eleitor mais ao centro do espectro ideológico.
Em meio aos acenos para outros nichos, o público mais fiel ao presidente encontra na letra referências que tradicionalmente lhe agradam: o líder que é do povo e sempre está do seu lado, a preocupação com os mais vulneráveis, os programas sociais celebrados pela militância e “casa, comida e emprego” como questões “sagradas”.
O "Rap do (Lula da) Silva" - de base popular e nostálgica, de fato cantado, bem produzido e com uma letra construída sobre acenos a nichos eleitorais específicos - emerge do mar de mesmice em que se encontram mergulhados os jingles, que sempre captaram o eleitor brasileiro de maneira muito específica, mas hoje se apresentam uniformizados por inteligência artificial, com vozes robóticas e versos genéricos mal encaixados em melodias esquisitas.
Retomar os traços de humanidade na comunicação política realmente chama atenção na era da inteligência artificial, na qual sobra pouco tempo para trabalhar o que importa: as emoções, centelhas do voto e da rejeição.





