Blog da KarlaComunicação e AtualidadesCRÔNICA | E não sobrou nenhum
Agatha Christie provavelmente jamais imaginou que, quase nove décadas depois de publicar “E não sobrou nenhum”, o título de seu famoso romance policial poderia cair tão bem na descrição da atual política brasileira

Agatha Christie provavelmente jamais imaginou que, quase nove décadas depois de publicar “E não sobrou nenhum”, o título de seu famoso romance policial poderia cair tão bem na descrição da atual política brasileira. Não temos uma ilha isolada, tampouco dez desconhecidos reunidos misteriosamente em uma mansão. Temos Brasília. E, no lugar dos personagens, uma enorme fileira de peças de dominó. Também podemos colocar umas pitadas daquele jogo de tabuleiro ‘Detetive”. Caberia muito bem. Mas no nosso jogo, temos um banco como peça-chave para nosso enredo: é o Jogo do Mestre – ou do Master.
De repente, a primeira peça do nosso dominó caiu. Tocou na segunda, que balançou a terceira, que esbarrou na quarta e, quando parecia que já tínhamos personagens suficientes para acompanhar a história, descobrimos que a mesa era muito maior do que imaginávamos.
O problema do dominó é justamente esse: depois que alguém dá o primeiro empurrão, fica difícil prever onde a sequência vai terminar. E o caso Master parece ter adquirido essa característica.
A investigação que começou em torno de suspeitas de fraudes financeiras ganhou capítulos, personagens, instituições e conexões. Nomes de empresários, políticos, autoridades, intermediários entraram em cena, alguns como investigados, outros mencionados em mensagens ou relacionados a diferentes episódios da história. E é preciso fazer a ressalva que os tempos exigem: aparecer numa investigação, numa conversa ou no telefone de alguém não significa ser culpado de coisa alguma.
Mas que o dominó cresceu, cresceu.
Aliás, os romances policiais costumam depender de algum objeto aparentemente banal que, de repente, se transforma na chave da história. Nesse jogo, temos um celular que, apesar de pequeno, basta abrir suas entranhas digitais para que a mesa de dominó ganhe novas peças.
É curioso observar também como funciona a plateia. Quando cai uma peça do lado de lá, há quem comemore em alto e bom tom “Eu sabia!”; quando começa a balançar uma peça mais próxima, a euforia diminui.
A prudência é sempre recomendável. Pena que, em política, algumas pessoas só se lembrem dela quando o dominó muda de direção.
Talvez esteja aí uma das características mais interessantes dessa história. O dominó não pergunta a ideologia da próxima peça antes de tocá-la. Tampouco consulta partido, cargo, amizade, biografia ou número de seguidores. Uma peça simplesmente encosta na outra.
E lá vai ela. Outra. Mais uma.
A esta altura, talvez a pergunta mais interessante já nem seja quem será o próximo personagem a aparecer, mas onde termina a fileira.
O nosso jogo ainda está em andamento, há muitos fatos a serem esclarecidos, versões a confrontar e, principalmente, um princípio que não pode desaparecer no meio do espetáculo: investigação não é condenação.
Agatha Christie tinha uma vantagem: quando começou a escrever seu romance, já sabia exatamente quem eram seus personagens, o que cada um havia feito e como terminaria aquela história.
No nosso jogo, nós não sabemos e seguimos diante da mesa, observando as peças balançarem e tentando descobrir quantas ainda existem fora do nosso campo de visão.
Talvez muitas permaneçam de pé. Talvez outras caiam.
A única certeza, por ora, é de que ninguém conhece o último capítulo. Será que Agatha Christie foi a mestre deste jogo?


