Blog da KarlaComunicação e AtualidadesCrônica da Semana
Para quem gosta de ler (ou quer voltar a ler)

O teste
O ser humano é engraçado, faz cada coisa nesta vida de que a gente até duvida, às vezes.
Tenho uma prima que inventou de fazer um tal de teste de ancestralidade: recebeu a propaganda no celular, foi convencida e, uma semana após, já estava esfregando uns cotonetes por dentro da bochecha para ver de onde ela tinha vindo. Na verdade, aqueles bastonetes com pontas de algodão foram, segundo ela, devidamente embalados e enviados de volta para o tal laboratório.
Moramos na mesma casa, como eu trabalho na cidade onde ela mora, minha tia acabou me cedendo, temporariamente, um quartinho, e, assim, então, passei a conviver mais com essa minha prima. Sabe essa mania de querer ser europeu ou de-onde-quer-que-seja? Essa mania minha prima tem. Mas, tudo bem, cada um com suas manias e hábitos.
Passou-se um mês até que “Ah! Que maravilha!”, exclamou ela em frente ao computador. Eu lia um livro de crônicas com vacas e touros de personagens (leitura leve!) e fui interrompida pelos gritos dessa minha parente.
“O que foi?”, perguntei. E ela rapidamente: “Meu teste de ancestralidade chegou!”. Com a face meio paralisada para não demonstrar reação estranha, ergui as sobrancelhas como de surpresa – mais para agradá-la do que realmente de espanto – e voltei ao meu livro. Contudo, não consegui retornar à leitura como antes, pois a empolgação ao ler em voz alta o tal resultado do tal teste acabou por me desconcentrar.
“E aí, o que deu? Tem algum parente no Japão?”, perguntei em tom zombeteiro. E ela: “Japão, não, mas eu sabia que tinha sangue árabe!”, respondeu ela.
Mais uma vez fiz cara de paisagem. Sabe como é cara de paisagem? Explico: é quando olhamos, mas tentando não expressar reação alguma. Tentei, se funcionou já são outros quinhentos.
“O que mais traz o resultado?”, perguntei mais para animá-la, pois realmente estava empolgada.
“Nossa! É tão completo! A minha ascendência europeia eu já conhecia, mas...olha só: tenho algum parentesco até com os gregos!”, exclamou a prima.
E por aí ela foi seguindo, falando de várias regiões e povos, incluindo os macedônios, todos que estavam em sua genealogia.
Enquanto ela narrava em voz alta toda sua ancestralidade sabe-se-lá-de-onde mais, eu a mirava tentando entender o que havia em sua mente. Será que ela acreditava naquilo mesmo? Ou melhor: será que aquele teste era real?
Como pode alguém acreditar que um pouco de saliva num tufo de algodão decifrará o código genético de uma pessoa? E minha prima, tão esperta cair num conto do vigário como esse? Inacreditável!
Eu vi uma satisfação no rosto da prima que me deu certa inveja, pois ela parecia feliz, satisfeita, por mais que fosse mentira – ou parece ser muito irreal para mim – aquela história toda havia a deixado contente por alguns minutos. Será que eu que sou a chata e não acha graça em nada? Será que o problema sou eu? Mas o que é um problema? ... Quem será que fez esse teste? Será que é um laboratório de confiança? E se esse resultado for algum tipo de trapaça? Mas ela ficou feliz e eu estou aqui, frustrada e duvidando de tudo com minha leitura de touros e vacas.
“Prima, onde que você fez esse teste? Demora muito para vir o resultado? Tem algum cupom?”.
Ah! Chega de questionar tanto! Eu só quero um pouco de felicidade.
Ramificações de Estocolmo
Eu poderia vir aqui e escrever belas linhas de contemplação à natureza, afirmando e reafirmando a beleza que temos neste Planeta Terra, a diversidade imensa de fauna e flora no mundo todo, destacar o que o Brasil possui de lindo e maravilhoso e de como muitos estrangeiros (ainda) pensam que vivemos todos em meio à selva dando um simpático ‘bom-dia’ a um macaquinho que passa pela janela de nossa casa. Não desse modo estereotipado, exagerei, confesso (ou não?), mas eu poderia assim fazer.
Contudo, meu pensamento acabou sendo levado para outra direção. É bem provável que você tenha ouvido falar por esses dias do Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado anualmente em 5 de junho (desde 1974). Também muito possivelmente você viu matérias, imagens e vídeos destacando ações diversas da sociedade em geral enaltecendo atividades – que, aliás, poderiam ser mais constantes – ligadas à preservação do meio ambiente. Talvez o seu filho tenha chegado em casa com uma plantinha, todo faceiro, que recebeu de alguma entidade nessa data tão especial. Talvez...
E talvez nos próximos dias tudo isso venha a ser esquecido, recebendo menos atenção como a que recebe durante o mês de junho anualmente. A probabilidade é muito grande. Não que eu torça para isso. Muito pelo contrário. Mas contra fatos não há cara torcida. Comprovemos, pois. Gosto de lidar com realidade.
Após a Segunda Grande Guerra, tivemos o primeiro registro fotográfico do planeta Terra feito do espaço. Houve comoção e iniciou-se um movimento de preocupação em relação ao nosso querido lar. Não vou nem considerar a Guerra Fria (apesar de tê-la, aqui, citado), mas aquela comoção que as mentes pensantes começaram a ter de forma mais intensa fez com que acontecesse a Conferência de Estocolmo, entre 5 e 16 de junho de 1972, na Suécia. Nações e organizações governamentais e não governamentais dela participaram e bateram o martelo: “Que tal comemorarmos todos os anos o Dia Mundial do Meio Ambiente?”.
Acordo feito, a partir de então foram vários os temas ambientais levantados e debatidos no mundo todo. Chamar a atenção de todas as esferas da população para os problemas ambientais e para a importância da preservação dos recursos naturais, que até então eram considerados, por muitos, inesgotáveis foi o que motivou a inclusão da data no calendário do mundo todo. E você chegou a conferir o tema proposto para 2024? Se ainda não, leia: “restauração da terra, desertificação e resiliência à seca”.
Talvez você leia as palavras ‘desertificação’ e ‘seca’ e não acredite nelas, especialmente após o vivido pelo vizinho Rio Grande do Sul e cidades de Santa Catarina. No entanto, a ‘restauração da terra’ pode nos fazer refletir sobre essas mais de cinco décadas de ‘copia e cola’ de atitude. Desculpe-me a canalhice do texto, mas, no fundo mesmo, do que nosso planeta mais precisa é de uma restauração de atitudes, visto que restaurar pode ser entendido como o ato de consertar ou o de recuperar. No final das contas, o que mais queremos é o conserto de tantos erros cometidos para com a natureza e a recuperação de um planeta que, talvez, esteja cansado de tanto falar e pouco fazer.
A história do óleo
Era um dia comum, mais um daquela semana infinita. Jéssica só queria chegar na sexta-feira tranquila, com sensação de dever cumprido e aproveitar o fim de semana fazendo nada. Ou pouca coisa. Pegou a chave do carro, entrou, ligou o motor e seguiu caminho.
- Preciso abastecer! – pensou. E assim o fez. Parou no costumeiro posto de gasolina, mas o Zé do Galão, sujeito que costumeiramente lhe atendia, não estava lá naquele dia. – Pode completar! – disse ela ao atendente do dia, o qual, educadamente, perguntou-lhe:
- Quer conferir água e óleo?
- Obrigada!
Carro abastecido, hora de conferir água e óleo, gentileza do amigo frentista:
- Com a água está tudo certinho, mas parece que o óleo está abaixo. Quer completar?
“E agora?”, pensou Jéssica. E respondeu:
- Acho melhor, óleo é importante, não?
O olhar do amigo frentista não foi dos melhores, então, Jéssica concordou em completar, fosse o que fosse. Aqueles segundos pareciam ir tudo bem até que...
- Qual óleo a senhora usa?
- Ah! O que vocês costumam colocar nos carros – respondeu Jéssica tranquilamente. Afinal de contas, ele deveria entender do assunto.
- Nós temos este que é ‘λάδι από κάτι’ e o óleo ‘ποιος ξέρει τι’.
As palavras proferidas pelo colega do Zé do Galão ecoaram feito grego na mente de Jéssica. Ao que ela voltou a dizer:
- Bem, o senhor pode usar o que achar melhor, desde que seja um de qualidade. Pode ser o mais caro, deve ser melhor.
E ele:
- Nós temos este que é ‘λάδι από κάτι’ e o óleo ‘ποιος ξέρει τι’. A senhora que sabe.
- Eu não entendo nada de óleo de carro, senhor. Eu confio no que você usar no meu carro, sem problemas.
- Nós temos este que é ‘λάδι από κάτι’ e o óleo ‘ποιος ξέρει τι’.
“Custa ele escolher a porcaria do óleo do carro para mim?”, pensava Jéssica enquanto sorria para o senhor que, gentilmente – mas completamente indeciso – preocupava-se com a escolha da proprietária do veículo. Ela insistiu mais duas vezes, obtendo a mesma resposta de sempre, com dois galões em mãos:
- Nós temos este que é ‘λάδι από κάτι’ e o óleo ‘ποιος ξέρει τι’. A senhora que sabe.
“Inferno! Eu lá vou entender de óleo de carro! Coloca qualquer um aí e deu!”, pensava ela, sem coragem para dizer isso ao simpático frentista.
- Bem, então pode ser esse do galão preto mesmo, deve ser bom.
Satisfeito que a dona do veículo havia feito a escolha, lá foi o amigo do Zé do Galão completar o óleo, finalizando o atendimento.
- Obrigada, senhor!
E lá foi Jéssica, morrendo de medo e traumatizada com um simples abastecimento de combustível.
- Custava ele escolher? E se explode esse carro? Eu, hein?
ANONIMATO
Era uma vez a Ana. Ana amava criar histórias em seus pensamentos, tudo era motivo de muita imaginação e alegria – ao menos na sua mente. Sempre que possível, pegava um lápis ou uma caneta e lá ia ela rascunhar algumas ideias em algumas folhas de papel. O mundo de Ana era fantástico, de suas ideias ela não queria sair. Mas ao menos ela escrevia, seus personagens todos ganhavam vida naquelas páginas rabiscadas, rascunhadas, por vezes, amassadas.
Ana era uma garota dedicada. Lia, prestava atenção ao seu redor, gostava de pessoas, animava-se ao ver a quantidade de gente diferente neste mundo para, depois, dar vida em seus enredos com base naquilo que observava. Ela realmente se empenhava.
Além de ser fã de alguns autores renomados e de lê-los com fervor, ela não abria mão de filmes e novelas: era o mundo dos sonhos de Ana! Quantas histórias ela já havia lido! Quantas...
Ana escrevia. Contudo, ela escrevia para si, a coragem que ela tinha ao criar personagens fantásticos e de diversas dimensões e realidades parava nos rabiscos daquelas páginas escritas à mão por aquela garota. Era jovem, mas não mais menina; era madura, mas não tão experiente; no fim das contas, Ana era insegura.
“Quando será que alguém lerá alguma história minha?”, pensava, com frequência, Ana. A bem da verdade é que ela não tinha coragem de tornar públicas as suas ideias. Em vez de lançar ao mundo aquilo que imaginava e criava e escrevia, Ana preferia esconder acumulando papéis e mais papéis em suas gavetas. Escondia até criar coragem para rasgar e lançar ao cesto de lixo. Essa coragem Ana possuía. E só.
O máximo de coragem que ela teve foi o de digitar algumas de suas histórias e, depois, deletar o arquivo. Ninguém poderia saber o que ela pensava. Ninguém! Quanto medo tinha Ana!
O tempo passou. Ana ganhou anos de vida, algumas rugas, seus cabelos ganharam o tom grisalho, suas mãos não empunhavam a caneta com a firmeza de antes, a família aumentou, a vida continuou, mas ela continuava a escrever, sempre para si, às escondidas. Todos sabiam que ela tinha uma paixão pelas palavras, mas também nunca ninguém a questionou sobre seus textos. O sonho de Ana era escrever para o mundo.
Houve um dia em que a tinta da caneta de Ana secou. Suas ideias foram para outro plano e suas histórias, ao menos aquelas que ela não atirou no lixo, ficaram nas gavetas de sua casa. Meses passaram-se e os filhos foram arrumar a casa da mãe. Em meio a tantos papéis, preservaram somente alguns documentos. O restante daquela papelada e caderninhos de receitas e tudo o mais foi para um grande saco de lixo. Ninguém viu, ninguém leu, ninguém soube que o sonho de Ana era escrever ao mundo. Era uma vez a Ana.


