Blog da KarlaComunicação e AtualidadesCRÔNICA | A correspondente
Leia a crônica da semana

Ela nunca foi fofoqueira. Faço questão de deixar isso claro. Era correspondente.
Não tinha diploma, redação, editor nem salário. Em compensação, tinha fontes. Muitas. A vizinha da frente, a prima da cabeleireira, a moça da padaria, o senhor que caminhava às seis da manhã e, principalmente, aquela amiga que sempre começava uma conversa dizendo: “Não conta para ninguém, mas...”. Ela não era fofoqueira.
A janela era o lugar que mais lhe aprazia: o ir e vir das pessoas, o buzinar dos carros, as vozes em gritos dos entregadores, o canto dos pássaros. Nada lhe passava despercebido. Ela estava conectada a tudo.
Ah! A internet e sua praticidade, como lhe fizeram bem! Se antes era sofrido ter de percorrer alguns metros — ou quilômetros — para averiguar alguma informação, com a popularização das redes e dos recursos de mensagens instantâneas, o mundo lhe pareceu ganhar outros tons: mais coloridos, mais alvissareiros e, sobretudo, mais eficientes.
Contudo, outro problema veio junto. Dar conta de tudo o que acontecia ao seu redor já não era tarefa tão fácil. Para ela, a sensação era de que novos concorrentes surgiam dia após dia. Mas ela era diferente. Ela não era fofoqueira. Era correspondente.
E a nossa correspondente fazia questão de estar a par de todos os acontecimentos. Precisava conhecer os pormenores das histórias, os porquês, os fatos e até aquilo que havia sido inventado. Não aceitava simplesmente “não saber”.
Informação, afinal, era coisa séria.
Se alguém mudava de emprego, não bastava saber para onde tinha ido. Era preciso descobrir por quê, quanto iria ganhar e, se possível, quem ficaria em seu lugar. Se um carro desconhecido estacionava por tempo demais diante da casa da vizinha, certamente havia uma explicação - e ela trataria de encontrá-la. Se um casal deixava de aparecer junto nas fotografias, acendia-se o alerta: alguma coisa poderia estar acontecendo.
Ela investigava. Cruzava informações. Consultava fontes. Às vezes, duas. Para assuntos mais delicados, três. Não espalhava boatos. Prestava um serviço de utilidade pública. Ela não era fofoqueira.
O que antes levava uma manhã inteira para chegar aos seus ouvidos agora percorria a cidade em segundos. Quando ela finalmente recebia a notícia, já havia gente comentando, compartilhando, acrescentando detalhes e, para seu horror profissional, espalhando versões sem qualquer apuração. Ora, bolas! Como passar adiante alguma informação sem conversar com, pelo menos, umas duas vizinhas? Ou vizinhos, pois a correspondente não poupava ninguém.
Aquilo tudo a deixava cada vez mais indignada. A falta de confirmação, a pouca conversa, o maior compartilhamento sem responsabilidade... a antiga janela era tão mais legal!
As janelas da atualidade acabaram se tornando muitas e tantas que a cada dia que passava a correspondente parecia querer isolar-se para não ficar com a ideia de frustração, não por falta de assunto – isso jamais! -, mas porque já não sabia exatamente qual era o seu lugar naquele novo mundo de tanta gente sabendo, comentando, compartilhando e contando.
Talvez estivesse perdendo espaço. Talvez precisasse se reinventar. Ou talvez fossem os outros que finalmente tivessem aprendido o seu ofício. Porque ela, correspondente, sim. Fofoqueira, jamais.



