Blog da KarlaComunicação e AtualidadesCRÔNICA | A FUGA
“Depois dessa, eu vou é embora deste país!”.

“Depois dessa, eu vou é embora deste país!”.
João bradou essa frase a plenos pulmões a fim de fazer reverberar a força de suas palavras indignadas. Bandido, corrupto, salafrário e tantos outros termos que nem adianta aqui enumerar. João estava fora de si. Indignado. Revoltado.
Só que, em outros momentos, João também ameaçou sair da cidade onde morava (aliás, onde ainda mora), mesmo após tantas situações que o deixaram em semelhante estado de desesperança.
“Eu vou embora deste lugar. Aqui nada vai para frente!”
Eu sei, pode doer em você. Essa frase tem sido cada vez mais rotineira. Na verdade, talvez nunca tenha saído de moda. Abandonar o barco, às vezes, parece a melhor saída. Contudo, lançar-se ao mar nem sempre é a melhor decisão depois do dilúvio. Adianto: a verdade não é minha. Aliás, ela é de alguém?
Ouvir a frase “Eu vou embora deste lugar” é mais comum do que se pensa.
João já foi embora muitas vezes. Mentalmente, é claro. Já escolheu outras cidades, outros estados e até outros países. Já pesquisou custo de vida, segurança, oportunidades de trabalho e, nos dias de maior indignação, provavelmente até imaginou qual seria a vista da janela de sua nova casa.
No dia seguinte, porém, João acordou no mesmo quarto. Foi à mesma padaria. Pegou as mesmas ruas. Reclamou dos mesmos buracos. Encontrou as mesmas pessoas. E continuou ali.
Não porque necessariamente gostasse de tudo aquilo, mas é que algumas de suas reclamações eram legítimas; outras, talvez, nem tanto.
O fato é que João havia descoberto uma solução extraordinariamente eficiente para os problemas que o cercavam: ir embora.
A administração da cidade não me agrada? Mudo de cidade.
O estado não funciona como gostaria? Vou procurar outro.
O país parece ter perdido o rumo? Cruzo o oceano.
João só não havia decidido ainda o que faria quando descobrisse que do outro lado também havia problemas.
Há certo conforto na ideia de que existe algum lugar onde as coisas funcionam exatamente como deveriam: uma cidade sem problemas, um país sem corrupção, uma sociedade sem injustiças, uma vizinhança sem conflitos, um trabalho sem aborrecimentos. Esse lugar costuma ter uma característica curiosa: está sempre em outro lugar.
De longe, quase tudo parece melhor. João sabia disso sem saber.
Por isso, sempre que alguma notícia o indignava, fazia novamente as malas imaginárias. Anunciava sua partida, escolhia destinos e decretava que, daquela vez, ninguém o seguraria. A viagem permanecia imaginária até a próxima indignação.
Talvez João realmente vá embora algum dia e encontre uma cidade melhor, um país melhor, uma vida melhor. E talvez descubra que mudar de lugar seja exatamente aquilo de que precisava.
No entanto, existe uma bagagem que nenhuma companhia aérea despacha: aquela com as expectativas, as contradições, os hábitos e aquela incômoda tendência de acreditar que os problemas pertencem sempre ao lugar onde estamos.
João ainda não comprou a passagem, mas continua procurando destinos.




