Blog da KarlaComunicação e AtualidadesCRÔNICA | O louco
“Esses desenhos representam a linguagem dos seres da floresta”, dizia o homem com seus rabiscos, riscos e (dizia ele) letras de um tal alfabeto que não sei de onde era.

“Esses desenhos representam a linguagem dos seres da floresta”, dizia o homem com seus rabiscos, riscos e (dizia ele) letras de um tal alfabeto que não sei de onde era. Mas lá estava ele, todo feliz com aquele material supostamente produzido por algum ser mágico.
Todos os sábados ele marcava presença na pracinha central, lugar onde muitos e muitas se reúnem para jogar conversa fora, trocar ideias, falar de política, dos últimos acontecimentos, trocar figurinhas (reais e imaginárias) sobre diversos sujeitos locais ou não.
Mas ele sempre estava lá: feliz, alegre, contente, disposto, vibrante. Ele recebia os olhares de quem por lá passava com esmero e, entusiasmado, explicava de que forma sua arte era criada. Como resposta ao seu olhar cheio de vida, ele recebia suspeição, risadas, desaforos, confrontos, mas ele seguia.
“Os seres da floresta dizem que a lua e o sol são...”, e assim ia prosseguindo com seus filosofismos e crenças (reais ou imaginárias).
Havia quem parasse apenas para ouvir suas histórias. Outros faziam perguntas que, de tão absurdas, provocavam gargalhadas entre os presentes. Ele respondia a todas com a mesma disposição, desenhando símbolos no papel, apontando para o céu, explicando os mistérios daquele universo que parecia existir somente para ele.
“Mas você já viu algum desses seres?”, perguntou certa vez um dos frequentadores.
“Claro que sim!”, respondeu, com naturalidade.
“E eles falam com você?”
“De muitas maneiras. Nem toda linguagem precisa de palavras.”
“É cada doido!”, alguns diziam e saíam.
Alguns riam. Outros balançavam a cabeça. Havia quem se afastasse, convencido de que já havia ouvido bobagens suficientes para um sábado.
O homem continuava com seus desenhos, suas histórias, o seu mundo.
No fundo, havia algo de genial naquele ser. Ou, ao menos, era o que parecia. Bastava observá-lo por alguns minutos para perceber a convicção com que apresentava sua arte. E ele realmente acreditava naquilo. As palavras ditas, os pensamentos bem pontuados, as ideias estonteantes... era o tipo de pessoa que, de alguma maneira, fascinava.
O brilho nos olhos era algo fora do comum quando por ele passava alguém realmente interessado na sua arte. Na verdade, ele não chamava aquilo de arte; para ele, era uma forma de comunicação, uma ponte entre o humano e os seres da floresta.
Sentada em um banco daquela mesma praça, observava o movimento quando percebi algo diferente. Após mais uma sequência de risadas e comentários zombeteiros, o homem ergueu os olhos dos papéis. Não havia tristeza, tampouco constrangimento. Apenas um sorriso discreto, de canto de boca, acompanhado de um olhar atento para aqueles que acabavam de rir dele.
Foi então que percebi: ele sabia.
Sabia de tudo.
E continuava desenhando. Louco? Quem?





